WhatsApp: é tanta briga que a onda agora é sair dos grupos, já percebeu?

Quando começou, eu nem percebi que era uma tendência. Uma mensagem despretensiosa de uma amiga dizendo que amava todos ali, mas que o grupo do WhatsApp não estava mais fazendo sentido para ela. “Fulana saiu do grupo”.

Foi depois de uma briga por causa de um meme. Briga que nunca existiria, aliás, na vida real, quando a gente ainda se via, se abraçava, ouvia a voz do outro. 20 anos de amizade balançados por causa de um meme.

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Os que ficaram no grupo, meio surpresos, meio envergonhados, não falaram mais do assunto. Depois foi um amigo, em outro grupo. Mandou uma mensagem antes explicando que queria ficar mais offline e foi-se embora. Muitos inbox depois, entendi seu ponto: “a gente fica aqui se falando todo dia, mas eu não vejo vocês há meses”.

Corretíssimo. É um tal de “bom dia, grupo”, mas encontrar que é bom, nada.

Miguel mandou uma foto que pintou o cabelo de azul há um tempo — já está verde (eu vi nos stories do Instagram) e a gente ainda não se viu. Larissa está grávida de seis meses e eu ainda nem toquei em sua barriga. Aí começou a epidemia...

No meio das combinações para um bar despretensioso numa sexta-feira, um integrante do grupo lançou uma discussão de futebol. Muitas linhas depois, alguém conseguiu voltar ao assunto que importava, o boteco. “Que horas?” Aí veio outro e disse que agora que Lula foi condenado acabou a corrupção no mundo.

A última frase que um deles disse, antes de sair do grupo, foi “depois a gente tira o resto, né?” E lá se vão mais mensagens no inbox para convencê-lo a voltar para a galera e conseguirmos combinar o happy hour. Falhamos. Na sexta, cada um ficou em sua própria casa.

Desde então, em cada um dos 22 grupos de que participo ativamente (sim, eu contei), cada dia é um que sai. Eu, que não tenho coragem para tanto, fico ali invejando todo mundo. Como será a vida dos que não têm grupos de WhatsApp?

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Será que eles se veem? Será que telefonam uns para os outros e dizem: então, vamos nos encontrar no boteco de sempre, às 20h? Ainda existe boteco de sempre para quem não tem grupo de WhatsApp? E mais: ainda existem amigos? Por que é tanta treta por causa de política, de futebol, de meme… é tanta opinião, é tanta intolerância com a opinião do outro, é tanto descaso, é tanto silenciar por um ano que o que menos tem no WhatsApp ultimamente é amizade nos grupos.

Será que o aplicativo que revolucionou a comunicação e as relações virou um grande Orkut, onde o que se vê é uma mensagem de bom dia que sua avó mandou com tulipas ao fundo?

Passar um café e conversar sobre coisas da vida ninguém quer? Saudade de quando grupo se reunia em volta de uma mesa de lata e a reclamação mais séria era porque não queriam servir a saideira…Concordam?

Sobre a autora
Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog
Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Fonte: Blogosfera Uol



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