Ora-pro-nóbis, um Santo Alimento!

No princípio era o estado de Minas Gerais. Em tempos de colônia, o ora-pro-nóbis, planta de nome científico Pereskia aculeata, frequentava as mesas dessa região, especialmente das chamadas cidades históricas que foram povoadas no ciclo do ouro. Nos últimos anos, sua fama se esparramou, inclusive pelos benefícios para a saúde. Vem do Sul uma revisão de estudos que confirma sua riqueza nutricional.

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“A espécie oferece minerais como manganês, magnésio, ferro, cálcio, além de vitamina C e fibras”, enumera a pesquisadora Larissa Wainstein Silva, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal de Santa Catarina. Um arranjo protetor da imunidade. Outros trabalhos revelam ainda uma grande quantidade de compostos fenólicos que resguardam as artérias.

Seu teor proteico, porém, sempre foi o mais alardeado. “Ele pode concentrar de 17 a 32% de proteína em matéria seca”, quantifica o engenheiro-agrônomo Nuno Rodrigo Madeira, da Embrapa Hortaliças, no Distrito Federal. Essa exorbitância inspirou a criação de um tipo de farinha que enriquece bolos, pães e massas, deixando as receitas com um tom esverdeado.

Desconfia-se também que tanta fartura esteja por trás de um de seus mais antigos apelidos: carne de pobre. Relatos dão conta de que, na falta de um filé no prato, o povo menos favorecido recorria ao alimento para suprir a necessidade do nutriente.

É certo que as folhas frescas não valem por um bife, mas são muito bem-vindas. “Trata-se de um ingrediente que promove a nossa biodiversidade e que pode colaborar para o combate à monotonia alimentar”, avalia o nutricionista José Divino Lopes Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Realmente é um sacrilégio priorizar hortaliças vindas de outros continentes diante de uma opção nativa, abundante, deliciosa e que carrega tanta história.

Para que serve o ora-pro-nóbis, das flores ao broto

  • Flores: elas também são comestíveis e colaboram na finalização de pratos. Além disso, atraem abelhas e se fazem essenciais para a produção de mel.

  • Fruta: a coloração alaranjada denuncia a presença de betacaroteno, substância aclamada pela ação antioxidante. É matéria-prima de geleias, sucos, licores, compotas…

  • Broto: cheio de fibras, o talinho, que muitos chamam de ponteira, é a parte jovem do ora-pro-nóbis e lembra o aspargo. Crocante, costuma ser degustado cru.

De cerca viva a alimento

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A Pereskia aculeata é considerada parte do time das plantas alimentícias não convencionais, as chamadas Pancs. A nutricionista Irany Arteche, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, é uma das responsáveis por cunhar a sigla. “Mas, no caso do ora-pro-nóbis, o P pode ser sinônimo de Patrimônio”, brinca.

“Como ele não está inserido nas cadeias produtivas, é raro encontrá-lo em feiras e supermercados”, avisa Madeira, um dos grandes entusiastas da espécie. Embora haja um movimento pela sua valorização na cozinha, ele segue sendo bastante utilizado exclusivamente como cerca viva nos quintais Brasil afora.

Inclusive, antigamente, as igrejas mineiras contavam com essa proteção natural. Graças à altura de seus arbustos — que alcançam até 10 metros de altura — e a presença de espinhos, a planta ajudava a impedir a entrada de intrusos na hora da missa.

Essa relação eclesiástica explica a origem de seu nome. Ora-pro-nóbis significa “rogai por nós” e fazia parte de orações dirigidas a Nossa Senhora. Há relatos de que alguns fiéis costumavam devorar a “cerca” durante os intermináveis sermões proferidos em latim, tão recorrentes no passado.

A nutricionista Andrea Matias, professora da Universidade Mackenzie, em São Paulo, e integrante do projeto Biodiversidade para Alimentação e Nutrição (BFN), iniciativa que visa ampliar o consumo de alimentos brasileiros, conta que a espécie também é chamada de outras maneiras. “Muitos não conseguiam pronunciar o latim, assim surgiram derivações como lobrobó, orabrobó, entre outros”, conta.

Como plantar e cultivar ora-pro-nóbis

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Onde achar: a muda não é comercializada em centros convencionais. A solução é procurar em viveiros e até em feiras de produtos orgânicos.

Dê apoio: escolha vasos grandes e apoie a espécie com estacas enfiadas na terra. Por ser uma trepadeira, ela necessita desse sustento.

Banho de sol: como é da família dos cactos, o ora-pro-nóbis precisa de luz solar. Em apartamentos, aconselha-se deixá-lo próximo a janelas.

Nada de encharcar: em ambiente externo, o ideal é plantar na primavera por causa das chuvas. Quanto à rega, não abuse — mas jamais deixe a terra seca.

Tempo de colher: em geral, a primeira colheita das folhas ocorre 120 dias depois do plantio. Daí é só fazer experimentações na cozinha.

A manutenção: para que não cresça demais, realize podas, em média, a cada dois meses. Use luvas ao manusear a planta, já que ela tem espinhos.

Dicas de preparo nas receitas

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Ao natural: as folhas suculentas podem entrar cruas em saladas. Misture com outras verduras nacionais, caso da major-gomes e da beldroega.

Cozida: compõe receitas de refogados, omeletes, caldos e acompanha costelinha de porco, frango caipira e outras carnes.

Farinha: leve as folhas ao forno e asse, em fogo baixo, por cerca de uma hora ou até secarem. Triture-as. Vai bem em bolos, pães, pizzas…

Molhos: o chef mineiro Eloi Moreira criou um molho pesto com ora-pro-nóbis e castanha-do-pará. A planta ainda dá um toque especial a vinagretes.

Poderes fora da cozinha

Não bastasse sua tradição culinária, o ora-pro-nóbis sempre foi utilizado como um tipo de unguento para aliviar feridas e outras encrencas da pele.

A antiga aplicação medicinal deu as pistas para a pesquisa do farmacêutico Nícolas de Castro Campos Pinto, da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Identificamos substâncias de efeito anti-inflamatório nas folhas da espécie”, explica.

Além de impedirem a inflamação, os compostos químicos extraídos da planta são capazes de favorecer a cicatrização e a produção de colágeno. “Desenvolvemos um creme que está em fase de testes”, revela o pesquisador.

Fonte: Saúde Abril



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