Forma de caminhar pode ajudar no diagnóstico da demência!

A demência tem um diagnóstico complexo, vinculado a uma avaliação clínica. Identificar o tipo de demência que acomete um paciente também não é diferente. Segundo cientistas da Alemanha, esse processo poderá ser facilitado observando a forma como as pessoas caminham.

Em experimento com 103 voluntários, eles conseguiram diferenciar os transtornos analisando como eles andavam por pouco mais de 20 metros. Os resultados foram apresentados na última edição da revista Neurology e podem contribuir para a área de tratamento cognitivo.

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O envelhecimento da população foi um dos fatores que motivaram os cientistas a desenvolver um método de diagnóstico. “Por conta da melhora na expectativa de vida em todo o mundo, a parcela de idosos está crescendo. Isso inevitavelmente acompanhará um aumento do número total de demências e distúrbios de marcha (caminhada) em todo o mundo”, diz ao Correio Charlotte Selge, pesquisadora da Universidade Ludwig Maximilian de Munique e uma das autoras do estudo.

O teste desenvolvido consegue diferenciar pacientes que sofrem com hidrocefalia de pressão normal idiopática (iNPH, pela sigla em inglês) daqueles com paralisia supranuclear progressiva (PSP), dois tipos de demência bastante parecidos. “O que ambas têm em comum é o fato de que são clinicamente caracterizadas por disfunção da marcha e comprometimento cognitivo. Além disso, parecem compartilhar mecanismos fisiopatológicos. Existem critérios de diagnóstico aceitos para PSP e iNPH. No entanto, o diagnóstico diferencial pode ser difícil”, detalha Selge.

Participaram da pesquisa 27 pessoas com iNPH, 38 pessoas com PSP e 38 pessoas saudáveis. Todas foram submetidas a um exame neurológico completo, análises oculares, ressonância magnética, além de testes cognitivos e de memória. Para avaliar como os voluntários andavam, eles tiveram que caminhar sobre um tapete sensível à pressão com 22 metros de comprimento. Primeiro, foram instruídos a caminhar em três velocidades: lenta, a preferida e o mais rápido possível. Em seguida, tiveram que caminhar de costas e, ao mesmo tempo, contando de forma decrescente. Como última tarefa, andaram para frente carregando uma bandeja.

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Os pesquisadores descobriram que, na segunda tarefa, houve maior redução da velocidade de caminhada nos voluntários com PSP, quando comparados aos com iNPH. Ao caminhar e carregar uma bandeja, a marcha piorou para aqueles com PSP, mas melhorou consideravelmente para os voluntários de iNPH. O resultado, segundo os autores, pode significar que o teste de dupla tarefa não foi suficientemente desafiante para os participantes com iNPH. “As pessoas com PSP parecem ser mais sensíveis a esses testes de caminhada de duas tarefas do que as que sofrem com iNPH”, frisa Selge.

Ao avaliar apenas a caminhada, a equipe diagnosticou com precisão de 82% quem tinha PSP e os pacientes de iNPH. Ao adicionar outra tarefa aos testes, a precisão diagnóstica aumentou para 97%.

Os cientistas acreditam que a abordagem pode ajudar na melhora do diagnóstico das doenças. “Nossas descobertas sugerem que adicionar esses testes de dupla tarefa seria uma forma econômica de refinar o diagnóstico de iNPH. Estudos futuros podem até aumentar a complexidade das tarefas para avaliar se elas fornecem ainda mais precisão, bem como informações sobre como as duas doenças afetam a marcha”, diz Selge.

Reversão

O diagnóstico precoce pode ter efeitos determinantes. Segundo a pesquisadora, a iNPH é uma das causas raras de desordem de demência potencialmente tratável e reversível, mas ainda é pouco identificada. “Ela é causada por excesso de líquido no cérebro e, muitas vezes, pode ser revertida, mas, geralmente, não é diagnosticada porque compartilha sintomas como problemas ao andar e se equilibrar, que também estão presentes em outras condições neurológicas, principalmente na paralisia supranuclear progressiva (PSP), que é causada por danos nas células nervosas no cérebro”, explica.

Thalita Dayrell Leite Quinan, neurologista e professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), avalia que a pesquisa alemã traz dados que podem ser úteis principalmente na área de diagnóstico cognitivo. “O que mais se destaca nessa pesquisa são a aplicabilidade e praticidade do dual task — um teste cognitivo e motor de duas tarefas simultâneas, como caminhar segurando algo — e sua alta sensibilidade para o diagnóstico de hidrocefalia de pressão normal”, frisa.

A neurologista ressalta ainda a necessidade de mais dados que auxiliem no diagnóstico da demência em casos classificados como potencialmente reversíveis. “Na hidrocefalia de pressão normal, o tratamento é eminentemente cirúrgico. Ou seja, destoa potencialmente do tratamento das demais demências, como Alzheimer, corpúsculos de Lewy, fronto-temporal e vascular”, diferencia.

“Assim, o diagnóstico correto pode mudar o tratamento da doença e o prognóstico do paciente, que, em alguns casos, pode ter possibilidade de cura.”

Fonte: Correio Braziliense



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