Existe exagero no diagnóstico e tratamento de deficiência de vitamina D?

A vitamina D, rotulada popularmente como a “vitamina do sol”, é produzida na pele quando esta é exposta à radiação solar. No entanto, a luz solar por si só nem sempre é capaz de suprir os estoques da vitamina, pois além de ficarmos muitas horas do dia em ambientes fechados, a capacidade de produção de vitamina D pela pele depende de outros fatores como idade, pigmentação (quanto maior, menor a produção), latitude (pior em altas latitudes) ou estação do ano (menor produção no inverno).

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Além disso, poucos alimentos contêm vitamina D, como ovos, peixes, derivados lácteos, óleo de fígado de bacalhau ou alimentos industrializados fortificados.

Levando em conta estes fatores, podemos dizer que a vitamina D é considerada um “nutriente problemático”, com potencial de alto risco de deficiência.

O que pode ser preocupante, uma vez que as ações mais conhecidas e estudadas da vitamina D estão relacionadas a saúde dos ossos, onde seu papel é crucial, regulando a absorção do cálcio. Dor óssea, fraqueza muscular, deformidades ósseas e fraturas são características clínicas de deficiência grave de vitamina D.

Nos últimos 20 anos, muitas pesquisas têm sugerido que a vitamina D possui outros efeitos que vão além da saúde óssea, como melhora de imunidade, redução de diabetes, doença coronariana e até efeito protetor contra o câncer. Entretanto, a suplementação de vitamina D visando tais benefícios é ainda bastante controversa e não recomendada por diversas sociedades médicas nacionais e internacionais.

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O diagnóstico de deficiência de vitamina D se baseia na dosagem da 25(OH)D. O fato é que foram encontradas altas taxas de deficiência de vitamina D em pessoas saudáveis de todas as partes do mundo. Até os surfistas do Havaí estavam com os estoques de vitamina D em baixa!!!

Mas será que a epidemia de deficiência de vitamina D é real? Ou será que o problema está no diagnóstico?

Possivelmente, grande parte da alta prevalência de deficiência de vitamina D em populações saudáveis no mundo é artificial, criada por altos valores de corte no exame de 25(OH)D.

O uso de tais valores de corte cria preocupação desnecessária e pode levar a uma reposição potencialmente irracional que não é isenta de risco de toxicidade, quando atingidos níveis de 25(OH)D muito elevados.

Assim, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia lançaram em conjunto, o Posicionamento de Intervalos de Referência da Vitamina D onde sugerem qual população deve ser triada para deficiência de vitamina D e quais os valores de normalidade devem ser adotados de acordo com a faixa etária e a presença ou não de doenças crônicas.

De acordo com o documento, as principais indicações para solicitação da 25(OH)D são:

• Idosos – acima de 60 anos;

• Indivíduos que não se expõem ao sol ou que tenham contraindicação à exposição solar;

• Indivíduos com fraturas ou quedas recorrentes;

• Gestantes e lactantes;

• Osteoporose

• Doenças osteometabólicas, tais como osteoporose, raquitismo, osteomalácia, hiperparatireoidismo;

• Doença Renal Crônica;

• Síndromes de má-absorção, como após cirurgia bariátrica e doença inflamatória intestinal;

• Medicações que possam interferir com a formação e degradação da vitamina D, tais como: terapia antirretroviral, glicocorticoides e anticonvulsivantes.

De acordo com o documento não existem evidências para solicitação de 25(OH)D para a população adulta sem doenças, portanto, a triagem populacional indiscriminada não está indicada. Em relação aos valores ideais da 25(OH)D, o documento sugere novos valores de corte que são mais baixos que os anteriormente utilizados para a população saudável:

Acima de 20 ng/mL é o valor desejável para população saudável (até 60 anos);

Entre 30 e 60 ng/mL é o valor recomendado para grupos de risco como: idosos, gestantes, lactantes, pacientes com raquitismo/osteomalácia, osteoporose, pacientes com história de quedas e fraturas, causas secundárias de osteoporose (doenças e medicações), hiperparattiroidismo, doenças inflamatórias, doenças autoimunes, doença renal crônica e síndromes de má absorção (clínicas ou pós-cirúrgicas);

Acima de 100 ng/mL: risco de toxicidade e hipercalcemia.

Fonte: Viva Bem Blog da Cintia Cercato



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