Covid-19: Anticoagulante pode reverter casos de pacientes em estado grave!

Um medicamento anticoagulante poderá salvar a vida de pacientes com a síndrome de dificuldade respiratória aguda, principal complicação da Covid-19, associada aos óbitos pela doença. Uma pesquisa conduzida no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo com 27 pessoas constatou que o uso da heparina, remédio indicado para prevenir trombose, reduziu o tempo de internação e de intubação, mostrando-se uma estratégia promissora para os casos graves da enfermidade.

O estudo, publicado on-line pela revista British Medical Journal (BMJ), soma-se a pesquisas anteriores realizadas em outras partes do mundo que também apontaram os anticoagulantes como um tratamento eficaz para evitar a falência dos pulmões.

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Todas as pesquisas com a substância, porém, são experimentais, e os cientistas alertam que é necessário realizar mais testes com numerosos pacientes, incluindo grupos de controle, para validar a descoberta.

A pesquisa de São Paulo foi idealizada pela pneumologista Elnara Marcia Negri, do Sírio-Libanês e da Universidade de São Paulo (USP). Ela conta que a inspiração veio da primeira paciente com Covid-19 que atendeu. Era uma idosa que apresentava dificuldade para respirar, além de começar a apresentar cianose nas extremidades. “Era um dedinho roxo, concomitante a um quadro de queda abrupta na oxigenação.” O pulmão insuflava facilmente, mas parecia não estar recebendo oxigênio suficiente. Como ela já estava com trombose no dedo, os médicos decidiram pela medicação anticoagulante.

Cerca de 6 horas depois, a paciente já respirava bem, a oxigenação havia voltado ao normal e a pele estava rosa.

A partir dessa experiência, Negri conversou com patologistas do Hospital das Clínicas da USP que vinham realizando necrópsias em vítimas da Covid-19. Os médicos relataram que observaram microcoágulos nos vasos sanguíneo em várias partes do corpo dos cadáveres.

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Todos os pacientes que entraram no estudo tinham algum grau de comprometimento pulmonar quando foram internados. Entre 3 e 4 dias do início da internação, começaram a receber a heparina, além do tratamento indicado para cada um deles. Quinze dos 27, ou 56%, receberam alta 4 dias depois do início do tratamento. Dos que estavam intubados, metade deixou de usar o ventilador um dia e meio após o uso da heparina.

Segundo a pneumologista, até ontem, apenas dois pacientes ainda estavam graves. “Isso nos animou muito. Sabemos que não é um trabalho randomizado (dividido em grupos, com dosagens diversas da substância, para comparação), controlado, mas foi um trabalho no desespero, no meio de pessoas que estavam morrendo. Então, começamos a fazer uma intervenção clínica que já é feita na UTI, que é a anticoagulação quando há suspeita de trombose, e essa intervenção clínica deu resultados”, comemora Negri.

Excesso de citocinas

As lesões verificadas nos vasos sanguíneos dos pacientes são, de acordo com o estudo de São Paulo, condizentes com a hipótese da tempestade de citocinas, que vem sendo associada à falência de órgãos dos pacientes com a forma grave da doença. Citocinas são importantes substâncias produzidas naturalmente pelo corpo, como forma de combate a agentes externos perigosos, como vírus. Porém, por motivos ainda desconhecidos, em algumas pessoas, o Sars-Cov-2 desencadeia uma resposta extremamente agressiva, com superprodução dessas proteínas.

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As tempestades também foram observadas em pacientes que morreram de Sars e Mers, doenças causadas por coronavírus semelhantes ao causador da Covid-19.

O excesso de citocinas provoca inflamações que produzem microcoágulos nos vasos sanguíneos. Com isso, órgãos vitais, como pulmões, deixam de receber sangue e oxigênio, o que provocaria a falta de ar característica da forma grave da doença.

A médica esclarece que o tratamento com heparina não é usado indiscriminadamente. “A gente está usando em todos os pacientes que, pelo sexto ou sétimo dia de internação, apresentam essa hipercoagulação que temos observado, e quando começam a baixar a oxigenação sanguínea. Nesse momento, entramos com o anticoagulante.” Ela, porém, ressalta: “Isso não é a cura da Covid-19. É um tratamento das complicações que o vírus traz quando invade o organismo.”

Uso monitorado

Para quem pensa em usar o remédio para prevenir ou se automedicar, a pneumologista é clara: isso pode matar!

Primeiramente, o anticoagulante que se vende em farmácias não tem dosagem suficiente para combater a Covid-19. Em segundo lugar, o uso dessa classe de medicamentos por quem não tem indicação tem efeitos gravíssimos. “Se você está com uma coagulação normal e toma o anticoagulante, pode morrer sangrando. De jeito nenhum é um remédio para automedicação nem para prevenção.”

Agora, os médicos do Sírio-Libanês e do Hospital das Clínicas de São Paulo pretendem lançar um estudo com número maior de pacientes, randomizado e controlado. Os pesquisadores terão a colaboração de cientistas holandeses, também interessados em investigar a eficácia da heparina.

No informe diário que o Ministério da Saúde divulga, avaliando a qualidade dos estudos publicados sobre Covid-19, o órgão destacou que o estudo com os 27 pacientes tem qualidade metodológica. Também observa que, como os próprios autores observaram no artigo, ainda é preciso estudar mais a abordagem, até que possa ser validada.

Fonte: Correio Braziliense



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