Como age o "Viagra Feminino", que acaba de ser liberado nos EUA? Quem pode tomar?

Um novo remédio promissor para mulheres que sofrem com o transtorno do desejo sexual hipoativo foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), órgão dos Estados Unidos que regula a comercialização de medicamentos e alimentos.

Chamado extra-oficialmente de novo “viagra feminino”, a droga liberada nos EUA promete tratar mulheres que foram diagnosticadas com a condição e devolver a elas a vontade de transar.

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Transtorno do desejo sexual hipoativo

Um dos distúrbios mais comuns verificados em mulheres, o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) trata-se de um transtorno psicológico em que a mulher sente falta de desejo espontâneo e também não responde a estímulos sexuais.

O TDSH acomete mulheres na casa dos 40 anos para cima, faixa etária em que o corpo feminino costuma entrar na pré-menopausa.

Para que o diagnóstico do TDSH seja feito, é preciso que a mulher deixe de sentir interesse pelo sexo por pelo menos 6 meses. Além disso, a falta de desejo precisa ser um incômodo na vida da mulher.

“Cerca de 40% das mulheres sentem angústia pela falta de vontade do sexo. Quando não sentem angustia, não é TDSH”, diz o ginecologista Gerson Pereira Lopes, vice-presidente da Comissão de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Como funciona o novo viagra feminino?

É justamente para tratar o TDSH que foi desenvolvido o medicamento Vyleesi (Bremelanotide), segundo o FDA.

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Injetável, ele funciona ativando os receptores de melacortina, o neurotransmissor ativador da libido. Para isso, o medicamento deve ser aplicado subcutaneamente no abdômen ou na coxa pelo menos 45 minutos antes da relação sexual.

Não é indicado que se aplique doses repetidas do Vyleesi em menos de 24h ou que se repita as aplicações mais de oito vezes ao mês.

Eficácia do Vyleesi: o que as mulheres sentem?

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Segundo o FDA, a eficácia e a segurança do Vyleesi foram estudadas em dois ensaios com duração de 24 semanas. Participaram do experimento 1.247 mulheres na pré-menopausa e com TDSH, divididas entre aquelas que tomaram o remédio e as que receberam placebos.

As participantes dos testes utilizaram os medicamentos duas ou três vezes ao mês e não mais do que uma vez por semana.

No período de análise, cerca de 25% das pacientes em tratamento com o remédio aumentaram em 1,2 ou mais a escala de seu desejo sexual (uma métrica que variava entre 1,2 até 6, sendo a pontuação máxima o indicador de maior desejo sexual); das que tomaram o placebo, o percentual foi de 17%.

Mais: cerca de 35% das pacientes tratadas com o Vyleesi apresentaram decréscimo nos níveis de angústia (em uma escala que ia de zero a quatro, sendo a pontuação máxima indicativo para níveis extremos de angústia gerado pela falta de desejo sexual). Quem tomou o placebo também teve um decréscimo deste sentimento: 31% delas.

Em relação à performance sexual, o estudo não sinalizou diferença a nenhum dos grupos e ambos permaneceram com o mesmo desempenho sexual do início ao final do experimento.

Diferença entre o Vyleesi e o Flibanserin

O conceito de "viagra feminino" não é novo. Nos Estados Unidos, já é comercializado o Flibanserin, cujo nome comercial é Addyi, também aprovado pelo FDA.

Assim como o Vyleesi, o Addyi também atua no sistema nervoso central da mulher. Porém, enquanto o Vyleesi ativa a melacortina, o Addyi reduz os níveis de serotonina e aumenta a quantidade de dopamina e norepinefrina para aumentar a libido da mulher.

Entretanto, depois de seu lançamento no mercado norte-americano, as vendas do Addyi não foram bem-sucedidas no país. Isso porque, para fazer efeito, o medicamento deve ser tomado continuamente (e não apenas no momento da relação) e, em testes, acabou chamando atenção por causar efeitos colaterais como tontura, náusea e fadiga. Além disso, ele não pode ser associado ao consumo de álcool, pois pode provocar desmaios. O Vyleesi, por outro lado, tem sua associação a bebidas alcoólicas liberada.

Outra diferença entre os dois viagras femininos está na resposta do corpo ao medicamento: enquanto o Vyleesi age de imediato, o Addyi demora a partir de oito semanas para que a mulher perceba os efeitos do remédio.

Efeitos colaterais do Vyleesi

Dentre os efeitos colaterais que o Addyi traz à mulher, destacam-se tontura, náusea e fadiga. O Vyleesi também apresenta efeitos similares.

Ao aplicar o medicamento no corpo, é normal que a mulher sinta náusea, vômitos, dores de cabeça e reações onde as injeções são feitas. Por esse motivo, Pereira Lopes se mostra até cauteloso sobre a recepção do novo produto pelas mulheres.

Indicação e contraindicação ao novo viagra feminino

O Vyleesi é indicado para o tratamento de mulheres com TDSH na pré-menopausa em diante. Caso a paciente tenha problemas ligados à falta de desejo sexual, mas ainda esteja em idade reprodutiva, Pereira Lopes alerta para que o uso do remédio não seja feito.

“Essas mulheres não deveriam tomar o remédio. Ainda não temos segurança. O TDSH não é tão frequente em mulheres na fase reprodutiva”, diz o especialista.

O novo viagra feminino deve ser evitado, ainda, por pessoas com pressão alta e com doenças cardiovasculares. Isso porque o remédio aumenta a pressão sanguínea – sinal que geralmente desaparece após 12 horas.

Apesar da associação do remédio ao consumo de bebida alcoólica não ser contraindicado, quem faz tratamento contra a dependência alcoólica e de opioides deve evitá-lo, uma vez que ele reduz a eficácia dos medicamentos usados para essa finalidade.

Viagra feminino no Brasil

O Vyleesi foi liberado apenas nos EUA e, no Brasil, o medicamento ainda não teve sua comercialização autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O próprio Addyi sequer chegou a ser aprovado e comercializado por aqui.

Remédio pode ser chamado de viagra feminino?

Apesar de ser popularmente chamado assim, a terminologia não é a correta. O famoso remédio para melhorar a vida sexual de homens atua de forma totalmente diferente do Vyleesi – e até mesmo do Flibanserin.

Afinal, o Viagra consiste em um facilitador para a disfunção erétil masculina, bem diferente do remédios para a mulheres, que tratam da falta de libido. “O Viagra atua na genitália, não no sistema nervoso central”, pontua Pereira Lopes.

Falta de libido e o debate: só remédio basta?

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Remédios para aumentar a libido são uma alternativa válida para tratar a falta de desejo sexual da mulher. Porém, não são nem de longe a única solução.

Isso porque a falta de libido, também chamada de queda de libido ou falta de desejo sexual, pode ser ocasionada pelos mais variados fatores que não só os fisiológicos.

"Falta de desejo, em geral, tem causas múltiplas. Essa multicausalidade pode vir de fatores psicológicos, o histórico de cada mulher, fatores culturais que interferiram nos fatores psicológicos, fatores fisiológicos, como alguma deficiência de hormônio, e também fatores ligados ao próprio relacionamento da mulher", exemplifica Pereira Lopes.

No caso do fator cultural, este traz um grande impacto à sexualidade da mulher por ser um dos pilares da existência (ou não) do desejo feminino.

Afinal, a pressão exercida à mulher quanto ao modo como ela expressa sua sexualidade pode acarretar comprometimentos psicológicos, como a inibição da libido.

"Uma ideologia de cultura focada na performance sexual da mulher tende a dificultar que sua vida sexual seja boa. A sexualidade, antes de ser natural, ela é cultural. A cultura é muito importante na etiologia de quase todas as questões, inclusive na do desejo", diz.

O próprio relacionamento da mulher também pode levar à falta de libido. Segundo Pereira Lopes, é bem possível que uma mulher não sinta desejo sexual com o par e, assim, pense estar sofrendo algum tipo de distúrbio. Porém, isso não significa que a mulher não tenha vontade de transar com outras pessoas. Trata-se apenas de um problema de frequência sexual, em que o parceiro demanda mais vontade do que a companheira.

"Quando o problema de desejo sexual é apenas com o parceiro e não existe com outra pessoa, não há dúvidas de que não há fatores biológicos envolvidos na situação. Porque um problema biológico, ele generaliza o comprometimento. Não tem como um fator fisiológico interferir apenas em uma situação", diz o ginecologista.

É por essa variedade de fatores que levam à falta de libido que nem sempre o tratamento para o problema será garantido com medicamentos como o viagra feminino.

"Mulheres que têm um parceiro inadequado, um histórico de abuso, de formação religiosa rígida... Não tem remédio miraculoso. Não é o remédio que vai fazer melhorar."

De acordo com Pereira Lopes, a recomendação médica é que mulheres com problemas de libido investiguem qual é o o real motivo para a falta de desejo.

No caso de fatores fisiológicos envolvidos, o tratamento hormonal é o suficiente para sanar a questão. Caso exista algum problema de relacionamento ou mesmo de ordem psicológica, a psicoterapia (até em casal) é uma alternativa.

Fonte: Vix.com



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