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O Uso de Antibióticos nos Frangos Pode Ser a Causa das "Superbactérias"

Acalorada nos Estados Unidos, graças à forte pressão de grupos de consumidores, a discussão sobre o uso de antibióticos para promover o crescimento de animais criados para a produção de carnes ainda não parece ser uma questão prioritária para frigoríficos e grandes compradores no Brasil, tampouco para o governo federal.

O uso desses medicamentos - alguns deles também destinados ao tratamento de humanos - se transformou em uma das hipóteses mais aventadas para explicar o recente fenômeno das "superbactérias", que ganharam resistência a algumas drogas.

Enquanto nos Estados Unidos empresas como a Tyson Foods e a Pilgrim´s Pride, controladas pela JBS, anunciaram que estão reduzindo o uso de antibióticos em suas criações de frango, no Brasil a iniciativa ainda se restringe a pequenos nichos (ver no Brasil, frango sem medicamento ainda é para poucos).

Para representantes da sociedade civil mundial, o aumento da resistência a alguma drogas pode estar associado à ingestão involuntária de antibióticos através do consumo de carnes, que aumentou exponencialmente na última década.

Ao contrário do uso humano, restrito ao período da enfermidade, os antibióticos para criação são oferecidos diariamente, como prevenção a doenças e para promover o crescimento mais rápido.

Estimativas indicam que cerca de 80% dos antibióticos comercializados hoje nos EUA são direcionados à indústria veterinária. Autoridades em saúde são unânimes em ressaltar que ainda não é possível comprovar a relação entre o consumo de carnes de animais criados com antibiótico e o aparecimento das superbactérias. Mas os questionamentos, sobretudo nos países desenvolvidos, crescem à medida em que os casos de óbitos por resistência a medicamentos sobem nas estatísticas hospitalares e entram na pauta de discussões dos simpósios internacionais de saúde.

E é nesse contexto que grandes grupos começam a promover mudanças no modo de produção animal nos EUA. A primeira a anunciar uma nova política sobre a questão foi o McDonald´s. Em março passado, a rede americana de fast-food - que tem procurado adotar um cardápio mais saudável em meio a resultados financeiros ruins - anunciou que não venderá mais nos EUA produtos com carne de frango tratado com antibióticos de uso humano. A decisão vale só a partir de 2017, mas deflagrou um movimento em cascata de grandes fornecedores de frango no país: Tyson Foods e Pilgrim´s Pride declararam a eliminação gradual desses medicamentos.

Na semana passada, a varejista Walmart engrossou o coro. A postura dessas empresas reflete o esforço anunciado em 2013 pela FDA, a Agência para Alimentação e Medicamentos dos EUA, para retirar antibióticos com importância médica da aplicação animal. Ao todo, a FDA pretende eliminar o uso de 283 produtos veterinários que também têm uso humano, na expectativa de que isso evite que mais bactérias ganhem resistência.

O pedido é "voluntário", mas a pressão é grande o bastante para a estratégia avançar. Boa parte desses medicamentos é misturada à ração também no Brasil. Apesar do debate no exterior, o assunto não entrou na "agenda" nacional. Procurado por duas semanas, o Ministério da Agricultura evitou dar informações, alegando indisponibilidade de porta-vozes.

Segundo foi apurado, o tema não foi contemplado na reunião de planejamento da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade que representa empresas de carnes de frango e suína, neste mês.

O Mc Donald´s, que nos EUA capitaneou a corrente "carne livre de antibiótico", afirmou que "100% do seu consumo de carne no Brasil é sem antibiótico" - o que o colocaria, em um caso inédito, à frente da política da matriz. Mas seu principal fornecedor, a BRF, admite usar alguns medicamentos.Já o Walmart respondeu que a diretriz é restrita aos EUA, onde o debate está mais avançado.

O principal foco de discussão está na indústria de aves, o que explica por que só os fornecedores de frango se manifestaram até agora. Diferentemente dos suínos (tratados profilaticamente) e dos bovinos (medicados para crescer só quando confinados), as aves são criadas com antibióticos com a finalidade de apressar o crescimento - e o abate.

De acordo com o professor João Palermo Neto, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), o ganho de peso mais rápido é a principal vantagem do antibiótico. O produto "normaliza a microbiota intestinal do animal, evitando processos inflamatórios subclínicos [que não são detectados], que prejudicam a absorção de nutrientes". As inflamações são comuns em granjas com alta concentração de animais.

Aqui no Brasil, a decisão americana e a repercussão na indústria foram vistas com surpresa. "Vai demorar um pouco para chegar ao Brasil, mas sempre achamos que a pressão viria só da Europa. Nunca imaginávamos que viria dos EUA", afirma Ariel Mendes, diretor de produção da ABPA.

Historicamente, os EUA não se pautavam pelo "princípio da precaução", que permite proibir determinado produto pelo risco potencial e não pela confirmação desse risco. Com os antibióticos, porém, o princípio adotado pelos americanos foi justamente esse, diz Palermo. "Os EUA se basearam nos princípios da ciência, que são os do Codex. Nesse caso, a pressão política e do consumidor falou alto", diz o professor, membro do Comitê de Especialistas em Aditivos Alimentares do Codex Alimentarius, instituição vinculada à Organização Mundial de Saúde (OMS), e responsável pelos parâmetros de resíduos em alimentos.

Segundo Palermo, o risco de resistência bacteriana existe e preocupa em locais onde os antibióticos são muito usados.

Mas, na avaliação do especialista, caso os promotores de crescimento provocassem resistência, os animais seriam os primeiros afetados. "Mas essa demonstração não tem sido comprovada", afirma.

O cerco aos antibióticos como promotores de crescimento teve início na Suécia, nos anos 1980. Em 2006, a União Europeia proibiu todos os tipos de promotores, o que atingiu desde os beta-agonistas (comumente usados em suínos e bovinos) até os antibióticos, estes mais usados para estimular o crescimento das aves. Mundialmente, o risco do desenvolvimento de resistência bacteriana é monitorado pelo Codex Alimentarius, vinculado à OMS.

Em 2007, o órgão recomendou não utilizar quatro classes de antibióticos (cefalosporinas de terceira e quarta geração, macrolídeos, quinolonas e fluoroquinolonas) considerados criticamente importantes para a medicina. O Codex solicitou que não fossem usados nem como aditivos, nem profilaticamente. Em 2009, o Brasil acatou a solicitação. Com a proibição, o risco de resistência dessas quatro classes a partir do uso em animais é anulado.Mas os principais antibióticos usados como promotor de crescimento em aves atuam sobre bactérias "gram-positivas", e os microorganismos que preocupam a medicina são as "gram-negativas" - caso da e. coli.

No Brasil, frango sem antibióticos é para poucos. São poucas as iniciativas de criação sem antibióticos no país. Segundo especialistas, o cenário tende a se alterar no longo prazo, o que deve motivar adaptações na indústria e inovações em nutrição e saúde animal.

Entre os grandes nomes da indústria nacional de carnes, apenas a JBS já explora nichos de mercado com a venda de carne de frango criado sem qualquer tipo de antibiótico. Na prática, a companhia obtém preço melhor com a venda do produto diferenciado e ainda entende quão mais lento é o ganho de peso do frango tratado sem o medicamento.

Fonte: Ave World



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