Neurocientista Reverte Efeito de Envelhecimento no Cérebro

Cerca de 35,5 milhões de pessoas no mundo têm algum tipo de demência, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2050, o número deve ser de aproximadamente 115,4 milhões de pessoas. É essa pandemia de demência que o neurocientista Gary Lynch, pesquisador da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, tem tentado evitar.

Em sua mais recente pesquisa, publicada no periódico “The Journal of Neuroscience”, Lynch descobriu que as ampakines – novas drogas que modulam os neurotransmissores no cérebro – foram capazes de restaurar a plasticidade das sinapses cerebrais e reduzir neuropatologias em ratos com distúrbios cognitivos.

“Os animais foram colocados em um ambiente enriquecido e receberam um tratamento de ampakines ou de solvente por três meses”, descreve o artigo. Nos ratos que não receberam ampakines, houve uma perda significativa de ramificações dendríticas, sinal de envelhecimento. Nos ratos que receberam as drogas, esse efeito do tempo foi revertido.

Lynch explica na entrevista abaixo mais sobre sua pesquisa, sobre o medicamento e sobre as perspectivas de tratamento para as doenças neurodegenerativas.

Gary Lynch

Neurocientista

Pesquisador da Universidade da Califórnia

Que caminho o levou à descoberta dos benefícios de ampakines para o cérebro em processo de envelhecimento?

Gary Rogers e eu inventamos as ampakines para testar a ideia de que melhorar a comunicação e a plasticidade sináptica nas redes do córtex irá melhorar a memória e a cognição. Trabalhando com Christine Gall e Julie Lauterborn, nós então descobrimos que compostos aumentam a produção de um fator de crescimento do cérebro que é crucial (BDNF). Isso levou ao trabalho que mostra que ampakines possuem fortes efeitos positivos em muitos modelos animais de distúrbios cerebrais de ordem neurodesenvolvimental. Por fim, nos voltamos para o cérebro em processo de envelhecimento.

Mesmo em um ambiente cheio de desafios, os ratos usados na pesquisa tiveram perda de ramificações dos dendritos (veja infográfico). Humanos também têm essas perdas? O que podemos concluir a partir disso?

Há estudos mostrando que os primatas perdem ramificações dendríticas com o envelhecimento. Alguns descrevem o efeito em humanos. A partir disso, concluímos que o cérebro dos mamíferos começa a perder circuitos relativamente cedo na vida adulta. Isso se alinha com a evidência de um declínio de muitas funções já na meia-idade. Algo triste, com certeza.

Sua pesquisa mostrou a recuperação de ramificações de dendritos em ratos. Quão longe estamos dos testes em humanos?

Empresas estão testando ampakines em humanos, mas não para perdas de funções relacionadas à idade. É muito difícil saber quanto demorará até passarmos as etapas regulatórias e o medicamento ficar disponível para as pessoas.

Além de doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer, quais outros distúrbios poderiam ser tratados com ampakines?

Trabalhos com animais mostraram fortes efeitos positivos no tratamento das doenças de Huttington e Angelman, perda de estrogênio (talvez na menopausa?), lesões causadas por derrames, TDAH, e depressão.

O senhor acredita que estamos nos tornando super-humanos?

Macacos e ratos aprendem coisas com ampakines que estão além das capacidades normais de animais. Um experimento com exames de imagem descobriu que macacos resolvendo um problema difícil estão aptos a ativar outras regiões corticais quando recebem ampakines. O que acontece, na verdade, é que eles expandem o tamanho de suas redes corticais funcionais. Note que esse é o efeito previsto, o efeito agudo das drogas. Se isso acontecer com humanos, acho que nós teríamos mais capacidade que um computador normal.

A noção de que humanos só usam de 10% a 20% de seu cérebro já foi desmistificada. Mas ainda há espaço para melhorias no cérebro humano? Em quais direções essas melhorias irão e como elas irão acontecer?

Um limite provável para a cognição é o tamanho das redes funcionais que você pode envolver para lidar com determinada linha de pensamento. Os testes envolveriam materiais muito complexos que, não importa quanto você pratique, estão além de nosso alcance. Talvez um mestre do xadrez ou talvez alguém como Ulisses, de James Joyce.

Na busca por foco e mais cognição, muitas pessoas têm usado “drogas da inteligência”. Pesquisas já mostraram que elas não melhoram as capacidades cognitivas realmente. Mas poderiam as ampakines ser o real melhorador cognitivo do futuro?

A cognição é difícil de ser definida, mas podemos dizer que depende da comunicação instante a instante entre elementos em áreas enormemente expandidas do neocórtex humano (uma marca registrada da espécie). Isso é mediado por eventos que acontecem em milissegundos e envolvem a transmissão de glutamato em incontáveis sinapses. Ampakines facilitam esse processo e, portanto, deveriam ser um melhorador cognitivo. Mas, é claro, o caminho da teoria à prática é escorregadio.

Fonte: O Tempo




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