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Brasileiros Ajudam a Desenvolver Um Colírio Contra Males da Retina... Adeus Injeções Doloridas

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 285 milhões de pessoas sofram com problemas de visão, sendo 39 milhões delas completamente cegas. A combinação de estratégias de prevenção de doenças infecciosas e avanços nos tratamentos, porém, tem reduzido as complicações.

Injeções nos olhos. A mera ideia causa arrepios e pode parecer um método bárbaro de tortura, mas é uma realidade à qual alguns pacientes de clínicas oftalmológicas precisam se adaptar. Não por muito tempo, se depender da bióloga molecular Renata Pasqualini e do oncologista Wadih Arap, pesquisadores brasileiros radicados no Centro de Câncer da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos.

Uma substância desenvolvida por eles e colaboradores pretende contribuir para o tratamento de alguns problemas oculares que causam perda de visão, como as retinopatias da prematuridade e do diabetes, e a degeneração macular relacionada à idade. E pode ser veiculada num colírio, como mostra o artigo publicado recentemente na revista Science Translational Medicine, fruto de uma parceria entre o casal brasileiro e o médico Richard Sidman, da Escola Médica de Harvard.

“O trabalho corrobora os resultados que obtivemos alguns anos atrás”, comemora o bioquímico Ricardo Giordano, da Universidade de São Paulo (USP), coautor do estudo. Quando trabalhou com Renata e Arap, ele desenvolveu uma molécula capaz de bloquear a proliferação anômala de vasos sanguíneos característica desses distúrbios dos olhos . Na época, os testes foram feitos em camundongos com lesões oculares semelhantes às que a alta pressão de oxigênio em incubadoras pode causar em bebês prematuros.

De lá para cá, o grupo nos Estados Unidos alterou a molécula terapêutica, criando uma forma cíclica que tem as vantagens de ser mais estável e mais afeita a reagir com os tecidos vivos e ganhou o nome de "Vasotide".

Também testou o candidato a medicamento em outros modelos animais: camundongos transgênicos com deficiência num gene ligado ao transporte de gordura no sangue e macacos que passaram por aplicação de laser nos olhos, condições que levam ao desenvolvimento de problemas na retina.

O bom resultado do colírio com Vasotide em impedir a proliferação de vasos sanguíneos nessa parte do olho onde a imagem se forma entusiasmou os pesquisadores, mas vários passos ainda são necessários para que eles possam propor uma medicação.

“Precisaríamos fabricar Vasotide com qualidade clínica e estabelecer protocolos para verificar a sua toxicidade em pelo menos duas espécies”, explica Renata, que já passou por esse processo com outros medicamentos desenvolvidos em seu laboratório. Só depois disso poderiam começar os testes clínicos em seres humanos. Tudo isso demora, mas ela está otimista. “Estudos com macacos são fortes, porque imitam muito bem as condições clínicas nas quais o produto final seria usado.”

A parte de produção, Renata afirma, não seria um problema. Ela e Arap são fundadores e sócios da empresa AMP Pharm, que faz justamente isso.

“Já desenvolvemos boas maneiras de veicular o Vasotide”, afirma. O grande trunfo com que ela conta é o de poder propor um colírio em vez de uma injeção.

Artigo científico SIDMAN et al. The peptidomimetic Vasotide targets two retinal VEGF receptors and reduces pathological angiogenesis in murine and nonhuman primate models of retinal disease. Science Translational Medicine, v. 7, n. 309. 14 out 2015.

Fonte: Pesquisa Fapesp



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